Segue matéria publicada no portal AE Investimentos da Agência Estado, muito interessante.
Link original: http://aeinvestimentos.limao.com.br/especiais/esp33931.shtm
—–
Segunda-feira, 07 de setembro de 2009, 03h00
Crise torna investidor mais ativo
Volatilidade afugentou acionistas da Bolsa, mas quem persistiu passou a fazer mais negócios e com “dinheiro novo”
Yolanda Fordelone - AE
A turbulência internacional afugentou os investidores da Bolsa de Valores de São Paulo. Depois de atingir o recorde histórico de total de investidores no pregão, em novembro do ano passado, com 548 mil acionistas pessoa física, a Bolsa registra agora pouco mais de 521 mil investidores, o que representa uma saída de 27 mil pessoas. Apesar do número menor, quem resistiu à volatilidade não só passou a fazer novos aportes de recursos como também mais negócios de compra e venda no mês.
Na comparação entre agosto deste ano e o mesmo mês de 2008, o total de acionistas com ofertas colocadas no home broker cresceu quase 40%. O volume financeiro negociado na plataforma online, que no ano passado movimentava cerca de R$ 27,5 bilhões por mês, em agosto deste ano bateu recorde, de R$ 42,5 bilhões, segundo dados da Bovespa.
“Num primeiro momento houve uma queda do número de ordens por cliente, mas a média voltou a subir ao longo de 2009”, diz o responsável pelo home broker da Spinelli, Rodrigo Puga. Lá, por exemplo, a média histórica de 11 negócios por mês recuou para 3,5 no auge da turbulência, entre setembro e outubro, mas já voltou ao patamar pré-crise. “Quem não vendeu as ações, ficou segurando durante todo o segundo semestre de 2008. Aos poucos, os investidores passaram a trazer ‘dinheiro novo’ e alguns até começaram a operar mais no curto prazo”, diz.
Para muitos investidores, dizem os especialistas, essa volta ao mercado com mais recursos e operações de curto prazo foi motivada pela própria volatilidade de preços, que trouxe boas oportunidades de compra e também grandes riscos às operações. “No pior momento, a volatilidade ficou alta, o que abriu chances de obter lucros ou prejuízos de uma maneira rápida”, lembra o gerente comercial da Ágora, Hélio Pio. Houve também aqueles que, diante de tamanha oscilação diária, buscaram proteger a carteira.
Quem persistiu
Em setembro de 2008, entre as pontuações mínimas e máximas, o Ibovespa teve variação média de 3.500 pontos por dia. “Mesmo com a volatilidade menor atualmente (1 mil pontos ao dia na média de agosto), o investidor que se acostumou a fazer mais negócios continuou com esse giro maior”, diz Pio. “O investidor ainda é de longo prazo, mas percebeu que o longo prazo é formado de vários curtos prazos e muitos tentaram recuperar o prejuízo que tiveram na crise”, completa Puga.
Antes da turbulência, o analista de sistemas Fernando Líbio Leite Almeida, 29 anos, aplicava a médio prazo para resgatar no final de um ano. Na época, fazia cerca de dois negócios a cada três meses. “Em 2007, fiquei afastado da Bolsa e, em agosto de 2008, voltei a aplicar pensando no curto prazo, com operações de 3 a 10 dias”, conta. Almeida passou a fazer entre 20 e 30 negócios por mês. Em 2009, o investidor já conseguiu dobrar seu patrimônio em ações.
O professor de química Joel Arnaldo Pontin, 47 anos, também mantém uma carteira de curto prazo d
esde o ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2002. “Antes, eu só possuía uma carteira de longo prazo para meus filhos”, relembra. Nesta última crise, ele relata que aumentou o volume negociado na carteira de curto prazo. “Opero no máximo 30% do meu patrimônio em cada negócio. Com a valorização da minha carteira de curto prazo (62,13% em 2009), o volume negociado acabou crescendo também, entre 12% e 15%.”
Mais negócios
O aumento do giro da carteira se deu não somente no home broker, mas também nas mesas de operações. Na Ágora, por exemplo, a mesa voltada à pessoa física registrou um crescimento do número de negócios de 50% em doze meses. “Os investidores individuais vêm buscando mais informações, principalmente com os operadores”, comenta Pio.
No caso da Umuarama, o gerente de negociação eletrônica, José Luiz Martins, acredita que o modelo de atendimento personalizado beneficiou a corretora. “Em 2007, fizemos uma reestruturação em que criamos a figura do gerente exclusivo, um profissional da mesa de operações que fica disponível para sanar dúvidas e informar notícias relevantes do mercado”, explica.
A estratégia foi reforçada durante a crise, quando mais investidores passaram a buscar informações. “Em janeiro, houve 108 mil negócios. Já em julho, fechamos com 232 mil operações”, compara. Com isso, a participação da corretora no volume movimentado pelo mercado avançou, de 3,4% para 5,3%.
Outras corretoras, como a Spinelli, igualmente, adotaram a estratégia de aproximação. “Em setembro criamos um chat particular com analistas. Nesse espaço, o investidor pode fazer perguntas diretamente para o profissional, numa conversa reservada”, explica Puga. Atualmente, cerca de 150 clientes já utilizam o sistema para trocar informações.
Amadurecimento
Essa mudança de perfil do investidor revela um amadurecimento no pós-crise. “É perceptível que o investidor tem procurado mais conhecimento. Nos chats, as perguntas são mais bem formuladas. Nas operações alavancadas, ele está mais consciente do que está fazendo. Antes, especulavam com qualquer ação”, afirma o analista-chefe da XP Investimentos, Rossano Oltramari.
O investidor Fernando Almeida diz que só ganhou confiança para aplicar no curto prazo quando se dedicou a aprender mais sobre investimentos. “Só neste ano, já li seis livros”, contabiliza. O investidor também procurou trocar informações com mais investidores, por meio de um blog criado por ele chamado “Surfando na Bolsa” (www.surfandonabolsa.com.br).
O especialista da XP Investimentos avalia que o tipo de palestra freqüentada também sofreu uma variação. “Os clientes buscam palestras mais específicas, de produtos que diminuem o risco da carteira”, diz Oltramari. Para Martins, da Umuarama, o acionista tem procurado um novo modelo de investimento, assistindo não somente palestras sobre ações, mas também de estratégias de hedge, com opções e minicontratos, por exemplo.
Na Ágora, Pio relata que são realizadas cerca de 40 palestras por mês, das quais um terço é considerado avançado. “Antes da crise fazíamos uma ou duas palestras avançadas por semana”, lembra o gerente comercial. A demanda do investidor também fez a Spinelli começar a dar palestras no primeiro trimestre deste ano, com cerca de 20 pessoas em cada apresentação. Na Umuarama, a procura por instrumentos de proteção incentivou até a criação de uma ferramenta de opções, lançada em julho. “Ela ajuda o investidor a montar estratégias com opções para reduzir o risco da carteira”, diz Martins.